sexta-feira, 19 de maio de 2017

Os pôsteres mais icônicos da história do cinema

Por Dora Carvalho

Imagens inesquecíveis, que capturam o espírito do filme, fazem mistério, mas ao mesmo tempo criam grande expectativa em torno do enredo. Os pôsteres de cinema antigo são, sem dúvida, obras artísticas que homenageiam atores, atrizes, nos lembram de trilhas sonoras marcantes, independentemente do gênero cinematográfico. 
Nesses dois anos do blog +CineLivre, uma homenagem a alguns filmes e atores históricos através de imagens fabulosas. 

Casablanca (1942)


Cantando na Chuva (1952)


E o vento levou (1939)


Bonequinha de luxo (1961)


Vertigo (1958)



Metropolis (1927)


O poderoso chefão (1972)


Star Wars (1977)


Scarface (1983)


Laranja Mecânica (1971)


Extra-Terrestre (1982)


Amadeus (1984)


2001 - Uma odisséia no espaço (1968)


Batman (1989)


Blade Runner (1982)


Caça-fantasmas (1984)


Tubarão (1975)



Cães de Aluguel (1992)


Jurassic Park (1993)


O silêncio dos inocentes (1991)



O exorcista (1973)


Pulp Fiction (1994)


Rocky (1976)


Indiana Jones - Os caçadores da arca perdida (1981)


 Este site disponibiliza pôsteres com imagens em alta resolução: 
http://forum.blu-ray.com/showthread.php?t=220892

domingo, 2 de abril de 2017

Vigilante do Amanhã: o cyberpunk está de volta

Por Dora Carvalho


Em 1985, o escritor norte-americano William Gibson lançou a obra Neuromancer, considerada um marco do surgimento do termo e estética cyberpunk. O livro retrata um futuro próximo em que a sociedade é dominada por grandes corporações e os humanos têm partes do corpo aperfeiçoadas com a robótica. Poucos anos depois, entre 1989 e 1991, o artista japonês de mangás, Masamune Shirow, publicou Ghost in the Shell, inspirado em Gibson. O enredo se passa em 2029 e apresenta uma sociedade em que os humanos acessam redes de informações com os cyber-cérebros. Qualquer dano ou insatisfação corporais são reparados com substituições cibernéticas. A protagonista é a Major Motoko Kusanagi, cuja única condição humana está no “salvamento” do cérebro da personagem, que foi implantado em um corpo robô.
Ghost in the Shell é um sucesso entre os fãs de mangás e animes. A sofisticação do enredo, dos traços do mangá e das adaptações para televisão e games arregimentou uma grande legião de fãs não apenas no Japão como em todo mundo. A notícia da adaptação para uma live-action na telona gerou bastante expectativa de quanto os produtores e diretores seriam fiéis à obra original, sobretudo, no que diz respeito às discussões filosóficas sobre a existência humana e os limites tecnológicos. Como Matrix (1999) também teve como uma das inspirações Ghost in the Shell, fãs do gênero esperavam uma espécie de revival. 
O longa A vigilante do amanhã – título dado à história aqui no Brasil e que acaba de estrear - é dirigido pelo diretor pouco conhecido Rupert Sanders (Branca de Neve e o Caçador /2012).
É claro que os fãs mais ardorosos tanto do mangá quanto do anime terão pontos de insatisfação. Visto a partir das referências as quais o filme se inspira, o enredo cinematográfico é uma espécie de introdução ao universo de Ghost in the Shell.
Mas quem está interessado nas diversas referências que servem de inspiração para o filme, assim como as cenas de ação e efeitos visuais, pode sair da sala de cinema querendo saber mais. E quem é fã da estética cyberpunk e, principalmente de Neuromancer e Reconhecimento de padrões de William Gibson, vai identificar no enredo e nas cenas de ação diálogos e diversas passagens descritas nos dois romances do escritor norte-americano. Gibson praticamente profetizou os avanços tecnológicos contemporâneos e como isso tudo é encantador e ao mesmo tempo nocivo, quando o excesso de tecnologia vai tomando conta de nossas vidas. 
Sem dúvida alguma, o enredo distópico de A vigilante do amanhã toca nesses pontos. O estranhamento inicial em relação à escalação de Scarlett Johansson como protagonista – houve certa polêmica por ela ser ocidental – se desfaz nos primeiros minutos, já que o enredo trata de uma sociedade altamente globalizada, sem distinção de países e múltiplas nacionalidades. Quem já leu livros cyberpunks sabe que esse tipo de distinção entre povos é praticamente inexistente, já que a tecnologia acessa tudo e a todos. 
O fato é que Johansson está bem na pele da Major Motoko, a atriz transmite muita empatia em relação à personagem, transferindo a discussão filosófica da história original para um contexto mais intimista, além, é claro, de protagonizar as melhores cenas de ação do filme. Major é líder de uma equipe de agentes do Setor 9, grupo especializado em terrorismo cibernético. O ator dinamarquês Pilou Asbœk é Batou, um agente de olhos de raio-x que acompanha Matoko nas missões, assim como Togusa (Chin Han), um atirador que não aceita melhorias tecnológicas no corpo. O chefe do setor é Daisuke Aramaki, vivido pelo ator japonês Takeshi Kitano, referência no universo da cultura pop japonesa. Os diretores deram a satisfação aos espectadores de deixá-lo falando somente em japonês. Juliette Binoche faz a doutora Ouelet, responsável pelo projeto que criou a robô Major. É através dela que surge um pouco da discussão dos limites entre humanos e robôs.

O que fica de A vigilante do amanhã é um desejo de ler e assistir cada vez mais obras relacionadas ao universo cyberpunk. Dois elementos do filme o tornam uma homenagem a esse estilo de ficção científica: a trilha sonora fiel ao anime japonês, com obras que vão de Mozart a Debussy, passando por música eletrônica japonesa e a fotografia absolutamente inspirada no cinema noir, com referência direta à Blade Runner. As cenas holográficas deixam isso evidente.






A sequência de abertura do filme é muito fiel a do anime. Veja abaixo:




sábado, 4 de fevereiro de 2017

Estrelas além do tempo ou figuras escondidas

Por Dora Carvalho

A história por trás do filme Estrelas além do tempo é por si só e incrível e fascinante. Três mulheres afro-americanas foram responsáveis por parte dos cálculos e preparativos para levar os americanos à dianteira em uma das maiores disputas do período da Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia: a corrida espacial. Enquanto os russos tinham Yuri Gagarin fazendo o primeiro vôo na órbita terrestre, os americanos se debatiam com uma série de erros e fracassos, colocando em risco a existência da NASA.
Margot Lee Shetterly, autora do livro Hidden Figures (ou figuras escondidas), ainda estava pesquisando em 2014 a história das mulheres que eram “computadores”, quando foi convidada a participar do roteiro de um filme que ganharia o mesmo título. Até o início da década de 60, computadores eram pessoas que faziam os cálculos matemáticos necessários para a execução de projetos da NASA. A Segunda Guerra Mundial e o período da Guerra Fria (a tensa disputa por hegemonia entre EUA e Rússia) fizeram com que o governo norte-americano recrutasse centenas de profissionais da área de matemática e engenharia. Por essa razão, a população afro do país começou a ocupar, ainda que de forma tímida, postos de trabalho no serviço público. Katherine Globe, Mary Jackson e Dorothy Vaughan era um desses “computadores”. Apesar do conhecimento e sólida formação acadêmica, se deparavam com severas limitações sociais em razão da segregação de pessoas: não podiam frequentar os mesmos locais que a população de cor branca, escolas, estabelecimentos públicos e, mesmo assim, foram pioneiras em suas áreas, lutando com as armas que tinham contra o preconceito. Eram mães, esposas e trabalhadoras em busca de dignidade para suas famílias e ascensão pessoal e social.
Em departamentos dominados por figuras masculinas no início dos anos 60, as três conseguiram feitos gigantescos para a época: conseguiram não só serem ouvidas, mas também puderam contribuir com a pesquisa científica e evolução do conhecimento.
Só que, como o título em inglês do livro nos apresenta, eram figuras escondidas. Os nomes dessas mulheres até muito pouco tempo atrás eram quase desconhecidos nos meios acadêmicos e científicos. Até que Margot Lee Shetterly iniciasse a pesquisa dessa história que logo ganhou destaque com a compra dos direitos de adaptação para o cinema.
É difícil definir o que é melhor neste filme, já que uma história tão interessante não ofereceu dificuldades para o diretor Theodore Melfi (ainda sem grandes títulos no currículo) transpor para as telas uma narrativa tão instigante. Mas ele fez mais. Colocou no elenco três gigantes: Octavia Spencer (que faz Dorothy Vaughan), Janelle Monáe (cantora estreante como atriz e já surpreendeu) e Taraji P. Henson, que está arrasando no papel da matemática Katherine Globe e, sem dúvida, conduz o filme, tamanha a força da interpretação. O longa tem ainda Kevin Kostner, Kirsten Dunst e Jim Parsons (o eterno Sheldon Cooper de “The Big Band Theory) que funcionam como um excelente elenco de apoio para fazer as três atrizes brilharem ainda mais.
O filme Estrelas além do tempo não tem grandes inovações cinematográficas, mas se agiganta com as atuações, a perfeita recriação de época, seja no figurino e cenários e, finalmente, pelas discussões que suscita. Apesar do excesso de indicações de La la Land – Cantando estações, ficarei na torcida para que a força da história de vida de três mulheres notáveis ganhe ainda mais destaque. O longa concorre a três premiações: Oscar de melhor roteiro adaptado, atriz coadjuvante para Octavia Spencer e de melhor filme. É possível que a atriz traga a estatueta para o filme.

Recomendo muitíssimo a leitura do livro, que traz com riqueza de detalhes como era o dia a dia da NASA nas décadas iniciais, quando era chamada de NACA, assim como a vida dos trabalhadores do primeiro centro de computação do complexo de pesquisa espacial. O filme é inspirado na história escrita pela autora, com mais destaque para o feito dessas três mulheres. Este é um raro caso em que livro e filme se complementam, já que foram produzidos quase que ao mesmo tempo e ambos são muito bons. Vale a leitura antes ou após o filme.






Estrelas além do tempo - Margot Lee Shetterly - Editora HarperCollins (2017)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Rita, a professora que todos gostariam de ter

Por Vilma Pavani

Ela é agressiva, até meio grossa às vezes, mal resolvida em seus relacionamentos  – tanto pessoais como profissionais – fuma feito uma chaminé, não gosta de ser criticada e toma decisões impulsivamente, o que a leva a cometer vários erros. Mas também é inteligente, perspicaz, leal aos amigos e, em especial, aos seus alunos, com os quais se compromete profundamente. Essa é Rita, a professora politicamente  incorreta da série dinamarquesa de mesmo nome. A série foi lançada em 2012 pelo canal dinamarquês TV2 e fez o maior sucesso no país. Ao mesmo tempo, tornou-se uma das produções estrangeiras mais populares entre os assinantes americanos do Netflix, e por conta disso o site de streaming decidiu ser o coprodutor da terceira temporada. Sem o Netflix provavelmente a série seria encerrada na segunda temporada, o que de todo modo não lhe tiraria os méritos e nem o sentido. Mas é tão boa de ver que valeria até continuar uma temporada mais.
A personagem central é Rita Madsen (Mille Dinesen, ótima na pele da personagem), uma professora de escola primária que luta para criar sozinha seus três filhos adolescentes e para quebrar a burocracia do sistema escolar. É interessante notar que apesar de se passar em Copenhague e com todas as enormes diferenças culturais e econômicas, os problemas enfrentados na escola têm muito em comum com qualquer escola de qualquer país, como a desmotivação de parte dos alunos, o bullying entre colegas e sobre os professores, gravidez adolescente, homossexualidade, preconceito de classes e contra imigrantes, drogas etc. E embora Rita seja de longe a pessoa mais interessante da série, vários personagens crescem e se sobressaem ao longo dos episódios, como a idealista e inexperiente professora Hjordis ou Jeppe, o filho mais jovem e gay de Rita.
Ora engraçada, ora séria, ora pungente, a história se desenrola com facilidade e em dois ou três capítulos a gente se deixa seduzir por ela.  E Rita, sem dúvida, com todos os seus erros e acertos, é a professora que gostaríamos de ser, ou de ter  tido, ou que cuidasse de nossos filhos. Vale a pena assistir.



 A série tem três temporadas e um total de 24 episódios. Foi criada por Christian Torpe.

sábado, 21 de janeiro de 2017

The OA: estranheza e sensibilidade

Por Dora Carvalho


Após sete anos desaparecida, a jovem Prairie reaparece em um video compartilhado pela internet. A volta gera ainda mais mistério, já que a protagonista da história ressurge com novas e inexplicáveis capacidades físicas. Esse é o ponto de partida de The OA, uma das mais surpreendentes séries lançadas recentemente pelo Netflix.
A primeira temporada tem oito episódios que vai desenrolando a trama de mistério de maneira a prender o espectador de tal forma que fica impossível não assistir a série em maratona. Cada fim de episódio gera uma nova pergunta e ainda mais mistérios.
Brit Marling (Prairie), além de protagonizar The OA, é responsável pelo roteiro e produção. A interpretação da atriz é sem dúvida o maior destaque da trama e uma surpresa. A sensibilidade da direção de Zal Batmanglij se une a uma construção muito bem feita dos personagens, que vão revelando seus dramas sem a necessidade de muitas explicações. Tudo é a partir do ponto de vista da protagonista, entretanto, o enredo se torna de certa forma caleidoscópico porque há conexão entre acontecimentos do passado e futuro e os personagens, apesar de muito diferentes entre si, vão ganhando ressonância.
Ao assistir, o espectador pode tentar enquadrar The OA em algum gênero, mas a trama reúne mistério, ficção científica e discussões de filosofia e dramas existenciais. Aliás, tentar classificar a trama é inútil, pois a proposta é realmente causar estranheza.
Os serviços de streaming, com uma variada gama de produções próprias, abriram a possibilidade de atores, produtores e diretores oferecerem enredos sem muita preocupação com grades de horário e faixas etária de público, afinal, quem define tudo isso são os assinantes. Não à toa, vemos séries como Stranger Things, que fazem referência aos anos 80 e Steven Spielberg, conquistar o público. Se fosse para reverenciar algum diretor da velha guarda, The OA estaria mais próxima da estranheza provocada por Twin Peaks (1990/1991) de David Linch, que, é bom lembrar, terá continuação neste ano.
The OA, que também tem a assinatura de produção de Brad Pitt e já tem segunda temporada definida, é uma série para experimentações televisivas, de ampliação das possibilidades estéticas para a TV e o público tem a oportunidade de assistir com calma uma produção com a sensibilidade do cinema, mas com a reflexão necessária de um livro. Mas daqueles que a gente só larga quando lê a última página.










terça-feira, 27 de dezembro de 2016

As séries que farão 2017 começar bem

Por Dora Carvalho

Sherlock




No que se refere a séries, 2017 já vai começar muito bom. Logo no primeiro dia do ano, vai ao ar a tão esperada quarta temporada de Sherlock. Ainda é difícil saber quando chegará ao Brasil, mas o que se sabe é que o três episódios serão intitulados como “The Six Thatchers”. As últimas entrevistas dos produtores e atores indicam que os capítulos finais de uma das melhores adaptações já feitas para as histórias de Sir Arthur Conan Doyle devem superar as expectativas.
Sherlock ambienta no século 21 as famosas aventuras do famoso detetive britânico com uma agilidade e sagacidade de roteiro poucas vezes vistas na televisão. A série ainda tem à frente um dos melhores atores da atualidade. Benedict Cumberbatch tem sido um fenômeno em todos os trabalhos em que atua e, sem dúvida, é o principal responsável também pelo sucesso de Sherlock.



Desventuras em série



É grande a expectativa também em relação a estreia da adaptação para a telinha da saga dos livros campeões mundiais de vendas “Desventuras em série”, do escritor Daniel Handler e que já rendeu um longa estrelado por Jim Carrey em 2004. O ator Neil Patrick Harris (de How I met your mother) personifica Conde Olaf, tio de Violet, Klaus e Sunny Baudalaire, crianças orfãs obrigadas a ficar sob os cuidados de um parente mal-intencionado, interessado apenas em colocar as mãos na herança dos três. A estreia é dia 13 de janeiro.



Punho de Ferro e Os defensores



Quem é fã de Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage terá em 2017 uma super dose de super-heróis. O Netflix promete a estreia de duas séries desse universo da Marvel. Em março, estreia Punho de Ferro, com 13 episódios que conta a história de Daniel Rand (Finn Jones), um bilionário e monge budista com poderes especiais e mestre em kung fu.

Já Os Defensores deverá reunir todo o universo da Marvel já visto pelo serviço de streaming.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Sully, um homem e sua escolha

Por Vilma Pavani

É típico do ser humano: sempre queremos heróis, aqueles que nos dão esperança quando tudo parece perdido. Talvez por isso parte da crítica tenha se decepcionado com o bom filme de Clinton Eastwood, “Sully - O Herói do Rio Hudson” (aliás, apenas “Sully”, em inglês), já que o personagem verídico - interpretado com a maior simplicidade e competência por Tom Hanks - passa longe da imagem do  sujeito valente que arrisca a vida para salvar o mundo. Até porque o verdadeiro Sully Sullenberger era um piloto de 57 anos quando "aterrissou" dentro do rio Hudson, em Nova York, com 150 passageiros a bordo e mais quatro tripulantes, durante um voo doméstico, sem que ninguém morresse. O avião tinha acabado de decolar quando colidiu com um bando de pássaros e ficou sem os motores, precisando fazer uma aterrissagem de emergência.
Na época, trabalhando em um jornal, lembro de olhar incrédula para as fotos do avião dentro do rio e das pessoas sendo recolhidas por equipes de resgate. Não me lembrava do rosto do piloto e do co-piloto, nem acompanhei as discussões posteriores sobre se eles poderiam ter pousado em algum aeroporto próximo, o que com certeza invalidaria o mérito do nosso "herói".
Bem, no cinema tive a chance, que todos podem ter, de saber como tudo aconteceu de fato.
Clint Eastwood continua um diretor de olhar afiado sobre as pequenas grandes coisas que caracterizam o ser humano. E mostra como um homem comum, ao ter de tomar uma decisão crucial, precisa contar com a experiência acumulada e arcar com as consequências de seus gestos. No filme, o incidente com o avião, por mais impressionante que seja, não é o essencial, mas sim a maneira como Sully lida com o problema e com as dúvidas que cercam sua atitude. Pois não bastava ter salvo a vida de todas as pessoas a bordo, ainda teve de defender sua posição. E é aí que o filme “pega”. Por exemplo, quando o confrontam sobre o critério usado para a decisão de pousar no rio, ele diz algo como "meus 40 anos de experiência” (Sully voava desde os 16 anos). Ou seja, não se trata apenas de coragem e nem mesmo de competência: decisões tomadas em momentos difíceis são fruto, também, das experiências, erros e acertos acontecidos ao longo do tempo.
Clint, como sempre, sabe do que fala. E Tom Hanks é um ator perfeito para o papel. Contido, distante de estrelismos, do histrionismo e do glamour aos quais é tão fácil a um ator de Hollywood se entregar, Hanks torna seu personagem absolutamente crível. Como seu personagem, ele é um cara fazendo seu trabalho da melhor maneira possível.
Não é um filme feito para ganhar Oscar, nem mesmo um grande filme. Mas é feito por gente inteligente, para ser assistido por quem gosta de pensar sobre o que faz um ser humano comum na hora em que tem de tomar uma atitude incomum.







Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Chesley Sullenberger, Jeffrey Zaslow, Todd Komarnicki

Elenco: Tom Hanks, Aaron Eckart, Laura Linney
Livro: Sully – O herói do rio Hudson - Chesley Sullenberger, Jeffrey Zaslow – Intrínseca, 2016.

Vilma Pavani é jornalista e acaba de se lembrar por que tinha medo de avião

sábado, 3 de dezembro de 2016

Dois filmes para quem adora ciência

Por Dora Carvalho

A chegada

Sem muito alarde inicial, o filme A chegada, dirigido por Denis Villeneuve, é, sem dúvida, uma das grandes surpresas do ano do gênero ficção científica. Roteiro, ritmo, fotografia, direção de atores e, sobretudo, a interpretação de Amy Adams, que protagoniza o filme na pele de uma especialista em linguística, constroem um novo tipo de sci-fi para a tela grande. Há todos os elementos de mistério de uma narrativa típica do gênero: alienígenas chegam a Terra sem barulho, sem ameaças, em 12 casulos que pairam no ar em 12 locais diferentes do planeta, gerando pânico, declarações de guerra e a iminência de um conflito global. Tudo isso simplesmente porque ninguém entende o porquê da presença dessas criaturas.
A dra. Louise Banks, vivida por Amy Adams, é uma das poucas capazes de construir pontes linguísticas que iniciam um processo de interação com os estranhos seres. A beleza do filme e do roteiro está na maneira como é feita essa construção. Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer criam então um enredo de ficção científica que trata do que nos faz essencialmente humanos, sobre as incertezas em relação ao tempo que temos neste planeta e sobre uma contagem de tempo não linear. A maneira como expressamos ideias, sentimentos, sonhamos e percebemos o mundo é colocada em uma perspectiva de reaprendizado, afinal, como nos apresentaríamos para uma criatura de outro planeta? Como uma criança percebe o mundo?
O filme é baseado no conto de Ted Chiang, que tem como título original “Story of your life”. O ponto de partida a hipótese de Sapir-Whorf que, resumidamente, indica que a linguagem que usamos determina a maneira como pensamos.
O filme A chegada tem ainda Jeremy Renner e Forrest Whitaker. Embora estejam bem em seus papéis, o foco é na personagem de Amy Adams, que faz com que o espectador participe da história por meio de suas descobertas e leva quem assiste a sentir todo o processo de descoberta que a personagem está passando. Há muitas comparações sendo feitas com outras referências no gênero: 2001 – uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick), Interestelar (Christopher Nolan), A árvore da vida (Terrence Malick) etc. A chegada é singular na maneira como humaniza as questões científicas mais básicas, como as dúvidas em relação a espaço-tempo, o quanto uma civilização pode alcançar em termos tecnológicos e a capacidade humana de lidar com os avanços do conhecimento sem criar uma corrida armamentista. É um roteiro que está muito mais para Isaac Asimov do que para possíveis homenagens a outros cineastas, é muito mais literário nas questões que aborda do que em termos de pretensão visual, embora seja um filme belíssimo. É uma narrativa simples, de entretenimento, mas que eleva a ficção científica a um patamar diferente, capaz de agradar tanto fãs do gênero quanto a desavisados ou quem está apenas em busca de uma história bem contada.





O homem que viu o infinito

Srinivasa Alyangar Ramanujan foi uma matemático indiano que, após uma infância difícil em Madras, na Índia, teve a oportunidade de apresentar a genialidade das descobertas que fez na Matemática na Universidade de Cambridge, Inglaterra, no período da Primeira Guerra Mundial. Desacreditado por outros acadêmicos por não ter uma formação convencional, foi obrigado a ultrapassar o preconceito e as formalidades acadêmicas para provar as teorias numéricas, séries infinitas, frações, dentre outras descobertas.
O filme de Matthew Brown – O homem que viu o infinito – é a bela cinebiografia do matemático indiano, interpretado pelo carismático Dev Patel. O ator faz uma fabulosa parceria com Jeremy Irons no longa, que vive o acadêmico Godfrey Harold Hardy, um defensor da beleza estética da matemática pura. O destaque do filme é sem dúvida as descobertas do protagonista, porém, o contexto social da época assim como as diferenças culturais, que determinam a maneira como se constrói conhecimento científico, é apresentado por meio das interpretações de Patel e Irons – um é jovem e entusiasta da difusão do conhecimento puro e simples, enquanto o professor mais velho fica entre a necessidade de inovação e o rigor da academia. O filme ficou em cartaz apenas no mês de outubro nos cinemas, mas acaba de ser lançado no Netflix.








sábado, 19 de novembro de 2016

Animas fantásticos e onde habitam: a magia está de volta

Por Dora Carvalho


O universo criado pela escritora britânica J.K. Rowling é tão rico e extenso que não é difícil imaginar uma série de livros e filmes para os próximos anos. O curioso e positivo foi a escolha do personagem Newt Scamander para retomar o mundo mágico dos bruxos. Quem leu os livros atentamente vai se lembrar que, embora ele tenha sido citado em vários momentos na obra, não era um personagem que saltava na trama. Era de se imaginar que outros personagens famosos como o próprio Lorde Voldemort, o bruxo e diretor de Hogwarts Alvo Dumbledore ou ainda os próprios pais de Harry Potter pudessem protagonizar alguma história. Mas acho que está aí o acerto de J.K. Rowling. A criação de um novo roteiro baseado em um personagem que não havia gerado tanta expectativa nos fãs foi uma aposta certeira, porque só criou ainda mais curiosidade.
Outro ponto importante é que essa escolha permite múltiplos cenários. A cidade de Nova York dos anos 20 em pleno desenvolvimento econômico como ponto desencadeador dos acontecimentos ajudou a gerar desdobramentos futuros que permitem a continuação neste mesmo local ou ainda a aposta em uma época ou país diferente. Fica provado em Animais fantásticos e onde habitam que as prometidas cinco sequências para o longa podem render muitas surpresas. Os próprios animais e a diversidade de criaturas, como os dragões, já renderiam boas histórias. Mas o foco da trama parece ser o vilão Gellert Grindelwald, vivido nas telas por Johnny Depp (perfeito!), que é citado de forma breve em Harry Potter e a Pedra Filosofal e depois ganha mais peso em Harry Potter e as Relíquias da Morte. A necessidade de o mundo bruxo ser escondido dos “trouxas”, ou seja, pessoas comuns, sem características mágicas, entra em discussão, já que há aqueles que sempre acreditaram em uma não separação entre bruxos e não-mágicos (a nova denominação utilizada em Animais fantásticos e onde habitam). Por um bem maior, os trouxas não podem saber da existência de poderes com os quais não sabem lidar sob o risco de tentar utilizá-los de forma perigosa, como em guerras. Mas há ainda aqueles que acreditam em uma união entre as pessoas, com a permissão de casamentos e criação de famílias de trouxas e bruxos, o ponto mais polêmico da discussão. Se antes a história girava em torno de um menino bruxo que sobreviveu a um terrível ataque do Lorde das Trevas, desta vez, todo o universo fantástico de J.K Rowling sustenta o enredo do mais novo longa e os próximos que estão por vir.
Como sempre, a escritora que também é produtora do filme, teve o cuidado extremo de escolher cada detalhe, principalmente, os atores. Eddie Redmayne (ganhador do Oscar pelo filme A teoria de tudo) foi uma escolha excelente. O ator, que já vem provando ao público a versatilidade com que interpreta diversos tipos, imprime um carisma ao personagem absolutamente diferente da impetuosidade de Harry Potter, Hermione e Rony, mas é ao mesmo tempo alguém tímido e destemido e, sobretudo, um apaixonado pelo mundo dos bichos, um cientista, um pesquisador que tem muito a revelar ao mundo. É o personagem que se revela aos poucos, algo que Redmayne faz com maestria. Eu não consigo deixar de relacionar a composição desse personagem com certas características de Hermione Granger, principalmente quando se fala da maleta mágica de Scamander.
A atriz Katherine Waterston, que vive Porpetina Goldstein ou Tina Goldstein, teve boa harmonia com Redmayne e, apesar de não ser tão conhecida da tela grande, provou ser a melhor escolha, já que faz uma auror expulsa de uma divisão de investigações do Ministério da Magia nos Estados Unidos, uma espécie de FBI bruxo.
Colin Farrel faz Percival Graves, mas o que se pode dizer aqui sem dar nenhum spoiler é que o personagem ajudar a entrelaçar a trama.
O lado cômico ficou por conta do personagem Jacob Kowalski, vivido por Dan Fogler, que faz um não-mágico e protagoniza as cenas mais divertidas da trama.
Queenie Goldstein, a irmã de Tina, vivida pela atriz Alison Sudol, é o personagem que, por enquanto, promete ter habilidades que podem render no futuro reviravoltas no enredo.

O filme é realmente encantador, não penas pela trama que é simples, porém, cheia de possibilidades, mas pelos lindos efeitos especiais e cenas de ação de arrepiar, tamanha a veracidade. Ainda mais considerando que se trata do impossível. A cena final é comovente: emoção e beleza em altas doses.




quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Dr. Estranho: quando ator e roteiro encontram psicodelia

Por Dora Carvalho


É possível que Dr. Estranho, o mais novo longa da Marvel, seja um divisor de águas quando se fala em filme de super-heróis. Caso se confirme e a expectativa de recordes de bilheteria – e a estreia em 33 países já vem concretizando isso – o público vai querer cada vez mais de roteiristas e diretores. Isso porque Dr. Estranho, e definitivamente por causa de Benedict Cumberbatch, está entre os melhores longas do gênero da nova safra de adaptações de HQs para o cinema.
A atuação de Benedict Cumberbatch está simplesmente sensacional. O ator, que sem dúvida nenhuma é um dos melhores da atualidade, dá um tom tão perfeito ao personagem, com nuances que vão da extrema arrogância ao mais miserável dos seres, e ainda com a energia e força esperada de um super-herói, que produtores vão ter de pensar mais antes de selecionar novos protagonistas para encarnar essas criaturas fora do comum.
Cumberbatch é a personificação do Doutor Stephen Vincent Strange, personagem criado pelor Stan Lee e Steve Ditko nos anos 60, e um dos mais interessantes do universo Marvel. Dr. Estranho se utiliza da extrema inteligência e de características místicas para combater criaturas do mal. Além do fato de o personagem ser muito bem construído nos HQs, Cumberbatch foi capaz de dar as nuances necessárias para a complexidade do médico que se achava uma espécie de deus e perde a capacidade de fazer cirurgias após um grave acidente.
As características do personagem e o universo criado pelos quadrinhos foram muito bem utilizados pelos roteiristas Scott Derrickson e Robert Cargill. Derrickson também dirige o longa e, talvez pelo fato de ter a liberdade de direção e roteiro, conseguiu executá-lo com maestria, dando a necessária liberdade para o elenco estrelado atuar.
O filme tem ainda as presenças dos excelentes Mads Mikkelsen, que faz o vilão Kaecilius, e da incrível Tilda Swinton, a Anciã, que orbitam harmoniosamente em torno de Cumberbatch, um enriquecendo a atuação de outro. Esse é um dos pontos em que o longa Dr. Estranho se diferencia de outros filmes da Marvel. A escolha de atores do quilate de Mikkelsen, Swinton, Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, que tem uma papel crucial na trama, deixa o filme redondo, harmonioso, sem pontas soltas. Além disso, o roteiro usa e abusa das possibilidades místicas oferecidas por toda a simbologia exercida pelas religiões do Oriente. O filme ainda tem a qualidade de acelerar a história da formação e conversão do personagem principal indo direto para o que interessa – ao território desconhecido e intrigante da cultura oriental, com cenas mirabolantes e inacreditáveis na cidade de Katmandu, no Nepal. Mandalas começam a girar vertiginosamente levando o espectador para um mundo mágico e transcendente, onde a matéria se desfaz em minúsculas partículas para se refazer em multiversos. Os efeitos gráficos e especiais são tão bem executados que não cansam, tamanha beleza, remetendo muitas vezes ao infinito das obras do artista gráfico holandês M.C. Escher, onde as figuras e os espaços não têm começo e nem fim.

E ainda para arrematar esse contexto uma trilha sonora arrasadora, em que a sonoplastia é permeada com um som de cravo para dar uma sonoridade de outro mundo. E, como senão bastasse tanta beleza visual, Interestellar Overdrive do Pink Floyd nos encanta e nos mergulha em um mundo surreal, psicodélico e fantástico.







Dr. Estranho - 115 min
Direção e roteiro: Scott Derrickson
Marvel/ Disney