sábado, 6 de agosto de 2016

Esquadrão Suicida: trilha sonora já vale o filme

Por Dora Carvalho

A propaganda e o suspense entorno do filme Esquadrão Suicida (2016) gerou uma grande expectativa entre os fãs de HQs ainda mais por dar destaques a alguns dos tipos mais estranhos e malvados dos quadrinhos da DC Comics. O filme estreou com grande bilheteria – US$ 65 milhões em apenas três dias – mas muitos não ficaram tão empolgados com o enredo. O longa dirigido e escrito por David Ayer (Corações de Ferro/2014 e Velozes e Furiosos/2001) é uma espécie de conexão de Batman vs Superman com o que vem pela frente – personagens como Mulher Maravilha (2017), Aquaman (2018) e Liga da Justiça (2017) logo ganharão as telas. Talvez seja por isso que terminamos Esquadrão Suicida com gostinho de quero mais.
Mas, apesar de a crítica ter torcido o nariz, os primeiros 30 minutos de filme já valem só pela trilha sonora sensacional. Para o deleite dos fãs do bom e velho rock clássico as cenas são encadeadas com a seguinte sequência: The Animals com “The House of the rising sun”; os Rolling Stones aparecem com “Simpathy for the Devil; Black Sabbath é homenageado com “Paranoid”; AC/DC enche de humor a tela com “Dirty Deeds Done Dirt Cheap” e “Bohemian Rapsody” do Queen reforça mais para o final do filme a ideia de que os personagens são adoráveis foras de lei.
O enredo leve ganha força, sem dúvida, com os personagens de Will Smith (Pistoleiro) e, claro, com a Arlequina de Margot Robbie, que empresta uma doce insanidade à personagem. Jared Leto está irreconhecível como Coringa, mas o personagem ainda é uma figura de mistério. Viola Davis, mais uma vez, rouba a cena, perfeita no papel de chefe da força tarefa de assassinos enlouquecidos. 

A verdadeira vilã da trama, infelizmente, fica apagada e não convence. Cara Delevigne no papel de A Bruxa é uma figura pálida e sem muita consistência na trama. Talvez essa seja a principal falha, fator que acabou empobrecendo o roteiro e o ritmo do filme. Mas Esquadrão Suicida resgata algo que há muito os fãs pedem. Um ritmo de história e sequência de cenas mais próximas dos HQs. E ainda a diversão de escolher o malvado favorito.  





sábado, 30 de julho de 2016

Voando alto: inspiração olímpica

Por Dora Carvalho

Histórias de atletas olímpicos quase sempre podem render um filme. Drama, superação, conquistas, vitórias, fama, fracasso são elementos recorrentes no esporte e nas telas. Mas algumas são tão inusitadas que parecem sugerir o contrário. De fato aconteceram, mas soa mesmo como um enredo de cinema.
A vida do esquiador Eddie Edwards ou Eddie The Eagle, como o atleta ficou conhecido nos jogos olímpicos de inverno de 1988, é uma dessas histórias cheias de reviravoltas e que começou com um sonho de menino de ser atleta olímpico e ganhar uma medalha. E acabou virando agora o filme Voando Alto. A infância cheia de limitações para andar por causa de problemas nos joelhos não desanimou o garoto do interior da Inglaterra que sonhava em carregar o símbolo dourado no peito. Só uma lembrança: os mesmos jogos de 1988 também renderam o filme Jamaica Abaixo de Zero (1993).
O ator Taron Egerton (Kingsman/2015), de 26 anos, era um bebê quando Eddie The Eagle marcou o primeiro recorde britânico de salto em esqui em mais 50 anos. Mas a interpretação do artista é o que mais cativa em Voando Alto, terceiro filme dirigido por Dexter Fletcher. O roteiro é simples e pouco inovador para o gênero, mas conquistou a atenção dos atores Hugh Jackman, Christopher Walken, Jim Broadbent e Keith Allen, que fazem deliciosas participações no longa, principalmente na segunda parte do filme. Egerton se esforça e convence na pele do esquiador desajeitado, com óculos de grau de lentes grossas e trejeitos atrapalhados e pode agradar o público adolescente.
Jackman interpreta Bronson Peary, um esquiador decadente e bêbado, que vive isolado em uma estação de esqui na Alemanha. Walken faz uma minúscula participação, mas o suficiente para encantar, como sempre, com a elegância de um ator capaz de qualquer papel. O mesmo acontece com Jim Broadbent que, junto com o restante do elenco, faz uma cena ridícula e hilária ao mesmo tempo, mas que garante a diversão no ponto alto do longa.

O filme tem os clichês típicos de histórias de superação do cinema, inclusive com a trilha sonora anos 80, mas não importa. Tão próximos de ver os jogos olímpicos no Brasil, o que queremos mesmo é sorrir e nos emocionar. E Voando Alto consegue isso não só para quem gosta de esportes. O tom brincalhão que o roteirista Simon Kelton deu ao drama vivido por Eddie Edwards conquistou atores estrelados que toparam participar do drama biográfico e também pode agradar quem gosta de filmes para ver com a família.




sexta-feira, 22 de julho de 2016

Um homem entre gigantes: ciência e futebol americano

Por Dora Carvalho

Will Smith é levado pouco a sério no cinema americano. Talvez porque ao longo da carreira tenha feito papéis cômicos que não exigiram muita intensidade dramática ou ainda por ser considerado um ator de blockbusters, já que a arrecadação total dos filmes do artista atingiram um total de US$ 6 bilhões, segundo a Forbes, que o considera um dos rostos mais rentáveis do show business. E ainda para piorar, dentre as indicações a prêmios, ganhou três vezes o Framboesa de Ouro, uma paródia do Oscar que destaca as piores atuações e filmes.
O carisma de Smith, entretanto, sempre o ajuda a se renovar. E não foi diferente no longa Um homem entre gigantes (Concussion/2015), dirigido por Peter Landesman, diretor que vem se especializando em roteirizar e adaptar para o cinema histórias verídicas, como é o caso deste longa.
Smith vive o médico neuropatologista forense Bennet Omalu, um imigrante nigeriano que pesquisa nos Estados Unidos sobre as causas de mortes no centro de autópsias de Pittsburg. Omalu tem um jeito peculiar de analisar os casos, fato que causa certa irritação entre os colegas. Em uma de suas pesquisas, depara-se com a morte abrupta de um dos jogadores de futebol americano mais ilustres da cidade. A partir daí, faz a descoberta de um trauma cerebral que acomete os esportistas em razão dos constantes e violentos choques em campo.
O ator se reinventou para o papel. Fala com sotaque nigeriano, tem trejeitos que nada lembram os maneirismos típicos dos filmes de comédia. O drama biográfico ajudou Smith a contar uma história de injustiças e que revela várias facetas: um médico que, apesar da quantidade de diplomas, por não ser americano, acaba sendo desacreditado; a busca incessante pela verdade por meio de pesquisas e comprovações científicas e a defesa incessante e sem escrúpulos de uma indústria esportiva que cada vez menos tem a ver com o esporte. O futebol americano está em busca de espetáculo e dos milionários contratos publicitários. Jogadores são apenas instrumentos para fazer dinheiro.
O filme é interessantíssimo do ponto de vista científico e apresenta como os avanços da medicina podem estar nos mínimos detalhes. Smith na pele do Dr. Omalu é convicente, sobretudo, porque nos apresenta a visão de alguém de fora dos Estados Unidos para com um esporte que, de tão naturalizado entre os americanos, é visto apenas como algo que inspira emoções e fanatismos. Poucos estão dispostos a ver que a violência e força excessiva em campo podem colocar vidas em risco, afinal, ninguém pode destruir o sonho americano.
O roteiro e direção são lineares e a história é apresentada devagar para que o espectador conheça as características do protagonista e da doença dos jogadores. O diretor teve o cuidado de poupar-nos de cenas chocantes de autópsias, priorizando a discussão científica, com explicações razoáveis, nem muito técnicas nem ingênuas. A história em si já é muito instigante. A emoção dos envolvidos e a gravidade da situação apresentada são os destaques.

Um homem entre gigantes é baseado em um artigo escrito por Jeanne Marie Laskas, publicado na revista GQ em 2009, sob o título de “Game Brain” e que causou grande comoção à epoca. A história depois virou livro. Fãs de esportes, sem dúvida, podem gostar do filme. É uma visão que tira do transe quase hipnótico provocado pelo espetáculo das partidas e faz enxergar o fator humano dentro de uma indústria bilionária.




domingo, 17 de julho de 2016

Stranger things: para fãs dos anos 80

Por Dora Carvalho

 A prova de que os anos 80 nunca saíram de moda e tem uma legião de fãs é que três décadas depois filmes, séries e novelas ganham remakes ou servem de inspiração para novas produções.
Quem não perdia um filme do Steven Spielberg ou as adaptações de livros de Stephen King vai identificar na recém-lançada série Stranger Things vários elementos da época. Dividida em oito capítulos, a produção é uma mistura de E.T, o Extra Terrestre (1982), Poltergeist (1982) e Goonies (1985), além de um toque de Contatos imediatos do terceiro grau (1977). Os irmãos Matt Duffer e Ross Duffer, conhecidos como The Duffer Brothers, assinam roteiro e direção em uma clara homenagem a Spielberg nesta produção original Netflix. Está tudo lá: ângulos de câmera, fotografia, ritmo do roteiro, estilo da trilha sonora, um dos destaques, já que relembra canções famosas do início dos anos 80.
O tipos de personagens também são bem do jeitão dos filmes de Spielberg daquele período: a mãe sofredora que cria os filhos sozinha aparece na pele de Joyce, vivida por Wynona Rider – atriz que despontou à epoca, mas não passou de uma promessa. David Harbour faz o xerife Hopper com tamanha perfeição que realmente parece saído diretamente de meados da década de 80.
Mas a grande atração são os meninos que fazem parte da turma de amigos formada por quatro garotos: Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin), Dustin (Gaten Matarazzo e Will (Noah Schnapp) que garantem a diversão para os telespectadores pré-adolescentes.
O mistério, os sustos, o terror meio tosco também estão presentes. Falar mais do que isso é spoiler. É legal ver a série relembrando tudo o que era febre nos anos 80. E reviver com as crianças de hoje o que era super divertido na nossa infância, como brincar de walkie-talkies.








sábado, 9 de julho de 2016

Whitechapel: imitações de crimes

Por Dora Carvalho

E se os crimes atuais fossem ecos do passado? E se a história mostrasse os caminhos das investigações? A ótima sacada da série Whitechapel é ter um roteiro baseado em crimes reais ocorridos no distrito londrino de mesmo nome ao longo dos últimos 200 anos.
O bairro é famoso desde o final do século 19, quando Jack, o Estripador cometeu o que se chama hoje de assassinatos em série e matou cinco mulheres de forma assustadora, provocando terror na população da época. O primeiro serial killer da história nunca foi descoberto. Em 2008, a série Whitechapel reconta esses crimes. O detetive Joseph Chandler, vivido pelo ator Rupert Penry-Jones, é um policial metódico e cheio de manias que precisa resolver um caso que corre sérios riscos de também ficar sem solução.
Whitechapel tem quatro temporadas. Cada uma delas desenvolve a ideia de que a história pode fornecer indícios de como descobrir o chamado “modus operandi” dos criminosos.
O trio de protagonistas tem, além de Penry-Jones, os divertidos atores Phil Davis, que faz o detetive Miles (excelente!), e Steve Pemberton como Edward Buchan, um guia turístico de roteiros de casos misteriosos,  obcecado por crimes não solucionados. O ritmo acelerado do roteiro e o humor britânico despertam o interesse desde o primeiro episódio. E a empatia com os atores seguram o telespectador, já que o destino de cada um fica em cheque ao longo dos episódios.
A série, embora tenha um início muito promissor, começa despretensiosa. E essa é a melhor qualidade da trama, que vai se desenvolvendo conforme as pesquisas históricas dos investigadores. É um enredo clássico de crimes. Bem próximo das narrativas de Arthur Conan Doyle ou Agatha Christie. Um assassinato é cometido e as pistas surgem aos poucos, mas de modo que confunde o espectador para segurar o suspense até a revelação final, bem no ritmo de thriller. O enredo, de maneira implícita, questiona ainda se o excesso de exposição midiática de crimes, tornando criminosos verdadeiras celebridades, não seria também uma forma de provocar ainda mais violência.
Em um mês de poucos lançamentos no cinema, a saída é aproveitar para ver seriados curtos como Whitechapel. A série está disponível apenas em DVDs importados ou pelo Netflix.





sexta-feira, 1 de julho de 2016

River: segure o fôlego e assista em maratona

Por Dora Carvalho

A série britânica River é daquelas de assistir de um só fôlego. É como um daqueles livros que só largamos após a última linha da história. A produção também é prova de que a TV, cada vez mais, consegue alcançar a literatura, não só pelo enredo, mas pelo que consegue provocar no espectador. A escolha de um ator com o brilhantismo de Stellan Skarsgård (Thor/Melancolia) indica que não há mais separação entre produções televisivas e cinema de altíssimo nível de qualidade. E os atores sabem muito bem disso e quem ganha somos nós.
Skarsgård é o policial John River, detetive da divisão de crimes violentos e homicídios da polícia londrina. Logo no início da trama comete um terrível erro. Todos que estão no entorno do personagem vão cobrar reparação, inclusive os mortos.
A chave da trama é apresentada para o público logo nos primeiros 20 minutos do episódio 1. A série tem seis capítulos de pouco mais de 50 minutos cada, com um ritmo que se desenrola sem a menor necessidade de pressa. É nítido que a atuação de Skarsgård contribui para o desenvolvimento do enredo. O ator praticamente faz com que o telespectador sinta o que ele está sentindo, característica principal de boas obras literárias. A série alcança esse triunfo sem a menor dificuldade, dada a qualidade também dos atores que estão no entorno do protagonista. Há um detalhe que parece pequeno à primeira vista, mas determinante para o envolvimento da audiência: os atores são comuns, sem maquiagem ou aparência impecável e heróica. Todos têm a expressão cansada e convicta de policiais exercendo o ofício madrugadas adentro, com jeito de quem se alimenta apenas de comida ruim de fast-food e café de máquina. E é isso que nos faz ter grande identificação com os dramas apresentados, pois são pessoas como qualquer um de nós.
A série foi escrita por Abi Morgan, responsável também pela excelente The Hour. Prepara-se para diálogos impecáveis em densidade, clareza e referências a outras obras de cinema, TV, literatura e música. É um flerte do noir com o sobrenatural. A produção é da BBC One e veiculada internacionalmente pelo Netflix.
River tem começo, meio e fim, porém, discussões suficientes para dar um certo “bug” cerebral. O mais importante é que ela permanece e perturba nossos pensamentos um bom tempo após o término. O enredo se fecha, mas, antes disso, o espectador já mergulhou na história e não tem mais como sair dela.







sábado, 11 de junho de 2016

Frio, namorados e filmes antigos

Por Dora Carvalho

Quando se fala em filmes românticos, dificilmente consigo deixar de fazer uma lista de clássicos do cinema. Ainda mais em um final de semana que temos a rara combinação de muito frio e Dia dos Namorados. Esses filmes, por mais que tenham décadas de existência, parecem guardar uma originalidade que nunca perdem o tom de novidade e a capacidade de emocionar, seja para derramar algumas lágrimas ou dar muitas risadas. E nem precisa assistir a dois, porque o final de semana pede uma sessão nostálgica até com a família. E também ninguém quer só clichês, então, segue uma lista bem variada.




A dama e o vagabundo

Este filme de 1955 parece ter se eternizado na memória de muitas crianças e adultos. Foi o primeiro filme animado feito em widescreen pela Walt Disney. O enredo conta a história da pequena cocker spaniel Lady, que ao se perder dos seus donos, encontra apoio em um cachorro de rua, o Vagabundo. A clássica cena do espaguete é considerada até hoje uma das mais românticas do cinema.



Bonequinha de Luxo

Holly Golightly vivida por Audrey Hepburn é uma personagem inesquecível. O longa adaptado do livro de Truman Capote tem tantas cenas incríveis e é tão bonito que fica impossível fazer apenas uma sinopse. E não tinha lá tanta intenção romântica, mas é pura poesia. O filme é de 1961 e recebeu cinco indicações ao Oscar, mas venceu em duas: melhor canção, com Moon River, e melhor trilha sonora original, produzida por Henri Mancini. Só posso dizer uma coisa: a cena final é uma das mais lindas que já vi no cinema.




Ladrão de casaca

Como sinto falta da beleza e elegância dos atores de filmes antigos. O charme de Cary Grant no papel de o “Gato” é de suspirar. Ele faz o bon vivant e ladrão de joias John Robie, que precisa fugir das autoridades da Riviera Francesa por um crime que jura não ter cometido. Para se safar da cadeia, aproveita a elegância da bela Frances Hayes, vivida por Grace Kelly. O longa de 1955 foi dirigido por Alfred Hitchcock e é considerado um filme de suspense. Mas para mim é um desfile de beldades...



Casablanca

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman protagonizaram em 1942 a cena final que, sem dúvida, está entre as dez melhores do cinema. Recebeu oito indicações ao Oscar e venceu três: melhor filme, diretor e roteiro adaptado.




As pontes de Madison

Mais um filme de grandes atores: Meryl Streep e Clint Eastwood e ainda uma história bem construída e que foge do óbvio. O resultado é um drama romântico daqueles de ficar horas se perguntando depois “e se...?”. O longa foi produzido por Clint Eastwood em 1995. E ele mesmo interpreta um fotógrafo da National Geografic que vai para a pequena cidade de Madison fazer fotos das antigas pontes da cidade. Lá, conhece Francesca, uma dona de casa italiana.



Antes do Amanhecer, Antes do pôr do sol e Antes da meia-noite

O diretor Richard Linklater fez, em 1995, um filme sobre encontros fortuitos, que geram consequências que ficam pairando por anos na vida dos protagonistas. E não deixou os telespectadores sem resposta. Em 2004, fez Ethan Hawke e Julie Delpy, os mesmos atores do primeiro longa se reencontrarem. Podia ter parado por aí, mas decidiu fazer Antes da meia-noite em 2013 que, na minha opinião, não tinha a menor necessidade. Mas os dois primeiros valem tanto que o último nem precisa ser visto.




Wall-E

O longa de animação de 2008 tem um inusitado e doce encontro dos robozinhos mais fofos do cinema. As aventuras de Wall-E e da robô EVA mudam o destino da humanidade e nos convidam a refletir sobre que futuro queremos para todos.



Orgulho e Preconceito

O clássico da literatura escrito por Jane Austen teve diversas adaptações e a mais recente é a de 2005, digirida por Joe Wright. Keira Knightley vive a heroína Elizabeth Bennet e Mr. Darcy é interpretado por Matthew Macfadyen. Tudo neste filme está nos detalhes: os ângulos, a fotografia, os olhares e as interpretações dos atores.




sábado, 4 de junho de 2016

Bletchley Circle: mulheres brilhantes

Por Dora Carvalho

Bletchley Park é uma mansão tipicamente inglesa que fica no interior do país e escondeu na Segunda Guerra Mundial uma estação militar, a X Station, de decifração de códigos alemães. O matemático Alan Turing, que recentemente teve a biografia retratada no cinema com o filme O jogo da imitação (2014), era um dos responsáveis pelas análises de criptografia. No local, os primórdios da computação que conhecemos hoje começou a se desenvolver.
Mas, sempre que a Segunda Guerra é retratada, lembra-se mais das batalhas travadas entre soldados e pouco se fala sobre os combates feitos por cientistas e estrategistas que ficavam bem atrás da linha de ataque.
É esse o ponto que trata Bletchley Circle, uma das séries mais interessantes que assisti neste ano. O enredo retrata o papel das mulheres fora do front. Nos anos 40, durante o conflito, elas se acostumaram a trabalhar, a utilizar todo o brilhantismo e capacidade profissional e, após o término dos combates, foram obrigadas a retomar uma vida doméstica ao qual não estavam mais acostumadas. Mas suas vidas já estavam fortemente marcadas pela guerra e as consequências são inescapáveis.
As quatro protagonistas de Bletchley Circle têm capacidades tão incríveis que até nos lembram dos mutantes de X-Men. Lucy (Sophie Rundle) é capaz de memorizar textos, fotos, cenas e dados a ponto de reproduzir as informações como um computador. Susan (a excelente atriz Anna Maxwell Martin, que brilhou em Bleak House) tem a capacidade de reconhecer padrões em todos os dados que coleta e os conecta de maneira que possa criptografá-los ou decifrá-los. Jean (Julie Graham) é uma misteriosa bibliotecária que guarda segredos da Segunda Guerra Mundial e os mantém como trunfo para cobrar de autoridades informações sobre os casos que está investigando. Já Millie (Rachael Stirling) é a mais forte e independente de todas e não se limita às convenções sociais. E todas têm cérebros brilhantes e são capazes de encontrar pistas onde ninguém mais pode ver. Falar mais do que isso seria spoiler, pois o seriado é de mistério e nos instiga a montar os quebra-cabeças junto com as personagens.
O roteiro cheio de viradas é assinado por Guy Burt (The Borgias). Foram produzidas duas temporadas para a série, que tem um total de sete episódios, com cerca de 46 minutos cada um. Dá para assistir em maratona. Infelizmente, a produção, que era feita pela ITV na Inglaterra, foi cancelada sem explicações claras, apesar da grande audiência. Ao ver a série, fico me perguntando se os segredos retratados possam ter incomodado demais. As atitudes e decisões tomadas durante a Segunda Guerra ainda ecoam muito mais do que podemos imaginar.

A série está disponível no Netflix e também em DVD e Blu-Ray.






P.S. Bletchley Park é um local aberto a visitas e tem um site ótimo. Para matar a curiosidade sobre o local: http://www.bletchleypark.org.uk/

domingo, 22 de maio de 2016

A senhora da van: vida real e imaginação

Por Dora Carvalho

Algumas histórias da vida real são tão incríveis que, ao se confrontar com autores sensíveis à beleza do dia a dia, tornam-se narrativas que mesclam verdade e ficção sem, no entanto, conseguirmos saber onde está uma coisa ou outra. O escritor e dramaturgo britânico Alan Bennet se deparou com esse desafio. E é disso que trata o filme A senhora da van (2015), baseado em livro homônino do autor e também roteirizado por ele. 
Bennet, interpretado pelo excelente Alex Jennings (Babel, 2006), se muda para o bairro londrino de Camden Town, quando a região emerge como um local de classe média e artistas começam a ocupar as antigas casas construídas para operários da época vitoriana. Os vizinhos, orgulhosos de uma vizinhança próspera, não querem se deparar com um problema que todos os dias bate à porta: a pobreza. A situação é personificada por Mary Shepherd (Maggie Smith), uma senhora idosa pobre que vive em uma van e que de tempos em tempos estaciona o veículo na porta de alguém, fugindo das autoridades de controle de tráfego da cidade.
Mas o que ninguém sabe e é aí que tudo parece uma grande obra de ficção, apesar de real, é o que está por trás da atitude obstinada da personagem em se manter na rua, apesar do frio e das péssimas condições de sobrevivência. O assunto é espinhoso, mas o filme, em uma narrativa de metalinguagem – o espectador nunca sabe o que é realidade e imaginação - dá conta de apresentar a história devagar, revelando aos poucos o passado da senhora da van, como todos a chamam no bairro. As surpresas no enredo vão acontecendo sem que o espectador fique tendo sobressaltos.
Quem está acostumado com toda a fleuma de Maggie Smith em Downton Abbey vai se divertir vendo a atriz interpretando uma moradora de rua. A interpretação é tão maravilhosa que até esquecemos de Lady Grantham do seriado, justo o que esperamos de uma ótima atriz como a dama do teatro britânico.

Vale destacar que o filme dirigido por Nicholas Hytner e produzido pela BBC Films é, sem dúvida, mais um daqueles para a lista dos melhores longas britânicos, que primam pela originalidade e sensibilidade para recontar situações inusitadas da vida diária que mais parecem ficção. Nesta lista, relembro aqui Garotas do Calendário (2003) e Ou tudo ou nada (1997), quando personagens que poderiam ser amigos nossos se deparam com situações que ultrapassam os limites do razoável, obrigando-as a tomar decisões que, à primeira vista, parecem estapafúrdias, mas que subvertem a ordem e o senso comum de forma positiva.




sábado, 14 de maio de 2016

Grace and Frankie: delícia de série

Por Dora Carvalho

A série Grace and Frankie foi concebida inicialmente para ser um produto destinado ao público com mais de 60 anos e gerar imediata identificação por parte dessa faixa etária. Mas o seriado buscou um público e alcançou vários. E a segunda temporada que estreou recentemente no Netflix é prova disso. Que delícia assistir Jane Fonda e Lily Tomlin protagonizando a trama com tanta sintonia. Há tanta verdade na atuação, que só poderia vir de duas atrizes que são amigas há muitos anos. Mais curioso ainda é saber que Jane Fonda sentiu necessidade de contratar uma professora de interpretação por não estar habituada ao formato televisivo. A situação demonstra ainda mais a grandeza da atriz.
A série, produzida por Marta Kauffman (de Friends) acertou em cheio não só por ter um enredo que abre discussões sobre os desafios e aventuras dos que já passaram dos 70 anos. Mas porque retrata de maneira super bem-humorada temas sérios (envelhecimento, sexualidade, homossexualidade, meio ambiente), sem abrir mão da densidade e questionamentos necessários, porém, foge de ser panfletário ou dogmático. Inicialmente, a sinopse parece bizarra. As protagonistas são casadas há décadas e os casais são amigos de longa data. Até que os maridos, intepretados por Martin Sheen e Sam Waterston (adoráveis em seus papéis), decidem abrir o jogo: são homossexuais e têm um caso antigo e querem finalmente casar-se. A primeira temporada constroi a nova vida e adaptação das duas amigas e culmina em um fato que serve de ponte para a segunda temporada e sacudir a trama.
Os novos capítulos são tão viciantes que foi difícil assistir sem ser de maratona. E também são curtinhos e não passam muito dos 30 minutos cada um. Dá vontade de anotar as piadas super inteligentes para comentar com as amigas, mas nem dá tempo. Mal rimos de uma e já vem outra, tamanha a naturalidade dos atores em cena e sintonia com o roteiro e texto.

Felizmente, já tem uma terceira temporada aprovada. Por mim, poderia vir uma a cada semestre. Como é bom ver atores experientes em cena!